Eu sei que essa frase incomoda. Mas é ela que abre a conversa mais importante sobre liderança que eu tenho com os meus heads.
A convocação da Copa do Mundo virou o tema de toda conversa nos últimos dias. Todo mundo tem opinião sobre quem merece estar na lista, quem ficou de fora, quem não deveria ter sido chamado.
Mas quase ninguém fala de quem faz o time funcionar de verdade.
Há alguns anos, participei de uma seleção de talentos para montar uma área nova do zero. Era para ser uma equipe de alta performance. O diretor que conduzia o processo queria os melhores de cada especialidade. Os mais seniores. Os mais reconhecidos no mercado.
Seis meses depois, aquela área estava completamente travada.
Não por falta de competência. Por excesso de protagonismo.
Todo mundo queria ser o atacante. Ninguém queria ser o volante.
Aprendi ali algo que 20 anos de RH me confirmaram vez após vez: time de alta performance não é time de estrelas. É time de papéis bem definidos, ocupados por pessoas que entendem o valor do que fazem mesmo quando o holofote não está apontando para elas.
O técnico da seleção não convoca onze atacantes.
- Ele convoca um goleiro que transmite serenidade sob pressão.
- Um zagueiro que segura quando tudo vai mal.
- Um volante que faz o trabalho invisível sem reclamar.
- Um meia que distribui sem precisar aparecer.
- Um atacante que sabe esperar o momento certo.
Cada posição existe por uma razão. Nenhuma vale mais que a outra dentro do esquema.
Nas empresas, a lógica é exatamente a mesma.
- Você precisa de quem lidera crises.
- De quem executa com precisão e sem vaidade.
- De quem questiona antes de todo mundo.
- De quem mantém a coesão quando a pressão aperta e o time começa a rachar.
Nem todos vão querer o microfone. Alguns são excelentes justamente porque nunca o pegam.
E aqui está o que mais trava a composição de times hoje: líderes que contratam por afinidade, não por complementaridade.
Contratam espelhos. Pessoas que pensam como eles, falam como eles, vieram do mesmo lugar. E espelhos não cobrem pontos cegos. Eles só ampliam o que você já enxerga.
Isso tem nome: viés de afinidade. E ele é o maior sabotador de times de alta performance no Brasil corporativo.
Nas novas gerações isso ficou ainda mais evidente. O Gen Z chegou recusando papéis sem sentido claro. Eles querem entender por que estão ali, qual é o impacto real do que fazem, como crescem a partir daí.
Não é arrogância. É consciência de valor. E ela cobra uma postura diferente do líder.
Montar um time de alta performance é um ato deliberado de liderança.
Significa assumir que a composição da equipe é uma das decisões mais estratégicas que um líder toma.
Significa mapear as lacunas antes de abrir qualquer vaga.
Reconhecer o valor de quem ninguém vê nas estatísticas.
Criar espaço para que cada perfil cresça sem precisar se transformar no que não é.
Delegar com intenção, não com conveniência.
O time mais forte que já vi na vida real não tinha os melhores currículos.
Tinha as melhores combinações. E um líder que assumiu a responsabilidade por cada escolha que fez.
Cada líder tem o time que merece. Mas o que separa o líder mediano do líder de alta performance é simples: o segundo não aceita esse time como destino. Ele trata como escolha.
Copa ou empresa. O princípio é o mesmo.
Você está sendo protagonista na composição do seu time, ou deixando o acaso fazer esse trabalho?
Sobre a autora
Juliene Salvan é Diretora de RH com mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento de lideranças executivas, podcaster do Passa lá no RH (BandJornalismo) e criadora do Método M.A.P.A. | Mentalidade, Ação, Pessoas e Aprendizado Contínuo.



